ALÉM DA MENTE • MATERIAL DE DEGUSTAÇÃO
CAPÍTULO 1

Por que parece que minha vida passa tão rápido?

O primeiro som do dia não é o canto do pássaro na janela ou o farfalhar das folhas sob a brisa da manhã. É um estalido metálico, estridente e regular, que vibra na cabeceira da cama.

Antes mesmo que as pálpebras se separem, antes que a primeira réstia de claridade atinja as pupilas, a sua mão direita executa um movimento mecânico. É um arco perfeito, desenhado no ar por um músculo que decorou a distância exata entre o lençol e o criado-mudo. Os dedos tateiam a madeira áspera, localizam o vidro liso do celular e arrastam a tela para silenciar a vibração.

O quarto permanece na penumbra, mas o seu rosto é imediatamente banhado por um brilho azulado e frio. Os olhos, ainda semicerrados e embaçados pelo sono, correm por uma lista vertical de notificações. Mensagens de texto enviadas por pessoas que estão a quilômetros dali, atualizações sobre tragédias distantes, alertas de e-mails que cobram respostas urgentes.

Seu corpo continua deitado, imóvel sob a coberta. Mas você já não está mais no quarto.

Na sua cabeça, a reunião das nove da manhã já começou. Os argumentos já estão sendo debatidos, o trânsito da avenida principal já está sendo calculado e o boleto que vence à tarde já pesa na sua contabilidade interna.

Quando os seus pés finalmente tocam o chão frio, o seu dia já aconteceu quase inteiro na mente.


Acompanhe os gestos seguintes.

Você caminha até a cozinha. A chama azul do fogão aquece a base de metal da cafeteira, a água sobe sob pressão e o vapor denso invade o ambiente. Há um aroma forte de café fresco pairando no ar. Mas você não sente o cheiro.

Instintivamente, enquanto a sua mão direita ergue a xícara quente, a mão esquerda segura o aparelho de vidro. Você engole o líquido amargo quase sem mastigar o pedaço de pão, os olhos cravados na tela, consumindo mais imagens, mais opiniões, mais ruídos. O estômago recebe o alimento de forma automática, enquanto o cérebro processa o roteiro do dia.

Minutos depois, você está atrás do volante. A chave gira, o motor ronca. Suas mãos seguram o couro do volante, seus pés alternam entre os pedais com precisão milimétrica. Seus olhos varrem o asfalto, acompanhando o fluxo dos faróis vermelhos à sua frente.

No entanto, se alguém interrompesse o seu trajeto na metade do caminho e perguntasse a cor das flores da árvore que você acabou de passar, ou o rosto do pedestre que cruzou a faixa há dois cruzamentos, você encontraria apenas o silêncio.

Você não se lembra de ter engatado a marcha na esquina da padaria. Não se lembra de ter freado no semáforo da escola.

Você simplesmente piscou e, de repente, o carro estava estacionado na vaga habitual da sua empresa.

Uma parte de você controlou o veículo de duas toneladas pela cidade. Mas onde estava você durante esses trinta minutos de trajeto?


Nós costumamos dar a isso o nome de rotina. Mas a palavra certa é transe.

Passamos a maior parte das nossas horas como atores interpretando um roteiro que foi decorado há tanto tempo que já não exige mais a nossa presença. Tomamos banho pensando nas respostas que daremos ao cliente; almoçamos olhando para os lados, mastigando sem sentir o sabor da comida; trabalhamos de olho no relógio, esperando pelo instante em que poderemos finalmente parar.

E, quando o dia termina e deitamos a cabeça de volta no travesseiro, o corpo está exausto, mas a mente continua acelerada. Resta apenas aquela sensação incômoda de que as últimas doze horas escorreram como areia fina entre os dedos. A vida passou rápido demais, não porque o tempo é escasso, mas porque nós não estávamos lá para testemunhá-la.

Tratamos o nosso corpo como uma mera máquina de carregar pensamentos de um cômodo ao outro.

Espera.

Não corra os olhos por estas linhas como quem busca um ponto final para encerrar a leitura. Não há pressa aqui.

Interrompa a leitura por quinze segundos.

Solte o livro ou o celular sobre o colo. Feche os olhos de leve. Sinta o peso físico dos seus braços ao lado do tronco. Note a temperatura exata dos seus dedos. Sinta a pressão que a cadeira ou o sofá exerce contra as suas costas e as suas coxas.

Apenas sinta a matéria do mundo onde você está pousado agora.

A solidez do assento, o peso dos braços e a temperatura da pele sempre estiveram aí, acontecendo a cada segundo. Mas, até que eu escrevesse estas palavras, eles não existiam para você.

Sua atenção estava capturada pela decodificação das letras, voando de frase em frase, antecipando o final do parágrafo.

Nós passamos décadas inteiras assim. O mundo físico real, com seus cheiros, suas texturas e as suas pessoas concretas, fica reduzido a um borrão cinzento de fundo enquanto nós corremos atrás de preocupações dentro da nossa própria cabeça.

Acreditamos que governamos os nossos passos porque tomamos decisões financeiras ou escolhemos a roupa que vamos vestir. Mas, no nível mais básico do nosso cotidiano, nós somos apenas passageiros de um trem que anda sozinho.

A mão pega o celular sem que tenhamos decidido pegá-lo. O peito aperta de raiva antes que possamos avaliar o fato. O olhar desvia para o lado ao menor sinal de ruído.

Executamos o roteiro. Mas não o vivemos.

E o cansaço que você sente no final do dia não é pelo excesso de tarefas físicas. É a reclamação silenciosa de um corpo que cansou de ser ignorado.

Olhe para as últimas doze horas que se passaram desde que você abriu os olhos pela manhã.

Quantos desses minutos você de fato escolheu habitar, e quantos foram apenas reações automáticas ao ruído ao seu redor?